“Você tá indo pra praia?”

Tinha umas oito da manhã.

Sol rachando em Alagoinhas.

Daquele jeito que a Bahia sabe fazer.

Eu entrei na obra com mochila no ombro, capacete na mão e uma camisa estampada da OSKLEN.

Não era espalhafatosa.

Mas também não era roupa de obra.

O engenheiro mais antigo da equipe me olhou de cima abaixo, deu aquela respirada funda e perguntou:

— Você tá indo pra praia?

Foi uma chamada dura.

Mas não foi pra me expor.

Muito pelo contrário.

Foi correção de quem entendia o peso do ambiente de obra.

E eu comecei a rir na hora.

Porque quando você toma uma lapada justa, você sabe.

Não tinha discussão.

Eu tava errado.


Eu morava em Salvador.

A obra era em Alagoinhas.

Estagiário naquela época não tinha moleza.

A Odebrecht pagava hotel pra equipe que vinha de fora e eu passava a semana lá.

Fim de semana voltava pra Salvador, lavava roupa, resolvia vida e segunda tava de volta no canteiro.

Só que numa dessas semanas teve reunião no sábado.

Depois outra.

Depois o cronograma apertou.

Quando vi, tinha ficado mais dias do que planejado.

Resultado:

Acabou roupa.

E naquela manhã eu tinha duas opções:

Ir de camiseta qualquer.

Ou ir com aquela camisa casual.

Na minha cabeça acelerada de estagiário, camisa era camisa.

“Vai passar.”

Não passou.


Obra é ambiente de pressão.

E em ambiente de pressão, imagem importa.

Não por vaidade.

Por postura.

Hoje muita gente confunde isso.

Acha que postura é frescura corporativa.

Não é.

Postura é respeito.

Respeito pelo ambiente.

Respeito pela equipe.

Respeito pela responsabilidade que existe ali.

Uma obra movimenta milhões.

Tem risco.

Tem prazo.

Tem pressão.

Tem gente dependendo de decisão sua.

E antes de você abrir a boca, o ambiente já tá lendo quem você é.


Ninguém nasce sabendo comportamento de obra.

Você aprende vivendo.

Tomando lapada.

Observando.

Escutando.

E obra ensina muito no detalhe.

Na forma como você chega.

Na forma como fala.

Na forma como escuta.

Na forma como trata pedreiro, mestre e servente.

Porque obra percebe rápido quem tá ali só pra bater foto de capacete.

E percebe mais rápido ainda quem tá disposto a carregar pressão junto.


Na hora do almoço eu fui na cidade.

Entrei numa loja simples.

Comprei três camisas sociais básicas.

Branca.

Sem invenção.

Voltei pro hotel.

Troquei a roupa.

E retornei pra obra.

Ninguém falou nada.

E isso foi o sinal que tava resolvido.

Porque engenheiro raiz não fica fazendo palestra motivacional.

Ele corrige.

Você entende.

E a vida segue.


Hoje vejo muito engenheiro novo querendo impor respeito no grito.

Na arrogância.

Na pose.

Só que obra não respeita pose.

Obra respeita entrega.

Respeita coerência.

Respeita comportamento.

O cara pode ter currículo bonito.

MBA.

Pós.

Inglês.

Mas se chega desalinhado, atrasado, desorganizado e sem postura…

A equipe sente na hora.

Liderança em obra começa no detalhe.


Eu sempre gostei de rir dos meus erros

ARNOLDO NEVES · @arnoldon.grifo

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