A chapa caiu tão rápido que eu nem vi vindo

A chapa caiu tão rápido que eu nem vi vindo.

Só senti a pancada.

Depois veio aquela sensação quente escorrendo no rosto.

Quando botei a mão…
já tava rasgado.

A equipe para.
Fica aquele silêncio estranho.

E você entende na hora:

deu merda.

A gente tava na amostra do Palacete Tira Chapéu.
Primeira rua do Brasil. Salvador.

Integração de 3 casarões históricos.
Reforço estrutural pra todo lado.
Demolição de parede de pedra com quase 70cm de largura.
Telhado de madeira que eu até hoje não sei como ainda tava em pé.

Parecia casa de bruxa.

Guerra atrás de guerra.

Essa obra já vinha há 3 anos antes da gente entrar.
Chegando perto da inauguração, faltando 2 meses…

não teve jeito.

Ou a cavalaria da GRIFO entrava em campo…
ou não tinha amostra pronta.

A gente caiu pra dentro.

Nesse dia um cara que já trabalhou comigo em várias obras tava cortando chapa metálica em altura.

A chapa despencou.

Nem vi vindo.

Quando percebi já tava com a mão na cara tentando entender o tamanho da situação.

Sangue descendo quente.
Sem coragem de olhar.

O João — engenheiro que tava comigo nessa missão — chegou correndo.

Ficou mais branco do que eu.

Fomos pro carro, que tava no manobrista do Fera.
Quem é de Salvador sabe o nível daquele hotel.

Chegando lá, espelho enorme na recepção.

Pensei:

é agora ou nunca.

Olhei.

Entendi duas coisas:

Não ia morrer.

Mas ia ficar com uma cicatriz grande na cara.

20 pontos.

Não avisei minha esposa nem minha mãe antes de falar com o médico.
Não queria preocupar ninguém.

Mas rádio peão em obra…
chega mais rápido que e-mail.

Deu 20 minutos e as duas apareceram no hospital.
Indignadas.

Falei logo pro médico:

“Doutor, não dá pra ficar em casa não.”

Minha esposa e minha mãe responderam junto:

“Vai ficar sim.”

Ele olhou pra minha cara:

“Você vai precisar ficar afastado.”

Mas quem vive obra sabe como funciona.

Cronograma continua.
Fornecedor continua ligando.
Cliente continua pressionando.
A obra continua.

Naquela reta final eu sabia a diferença que fazia no campo.

Não dava pra deixar cliente na mão.
Nem meu time.

Ficar em casa nunca foi opção.

3 dias depois eu tava lá de novo.

Ainda inchado.
Ponto puxando.
Dormindo mal.

Mas tava na obra.

Obra acostuma a gente com o risco.

Andaime.
Peso.
Altura.
Pressa.
Improviso.

Depois de um tempo você passa no meio disso tudo como se fosse cenário.

Normal.

Até o dia que alguma coisa explode perto da tua cara.

Literalmente.

O cara da chapa trabalha comigo até hoje.

Toda vez que encontro ele falo:

“Você me lascou, viu… o seu tá guardado.”

Na resenha. Mas tá guardado.

No final…

a amostra abriu no prazo.

A obra foi entregue.

Missão cumprida.

Com 20 pontos na cara, inchado, dormindo mal…
mas cumprida.

E ainda agradeço a Deus por ter sido comigo e não ter sido algo pior.

Porque quem é empresário sabe o peso que é um acidente de trabalho.

Existe uma engenharia que ninguém mostra.

A engenharia que sangra.

E quem vive obra de verdade sabe exatamente do que eu tô falando.

Engenharia sem romantização.

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